25 junho, 2026
spot_img
Iníciocultura'O Sol Nasce Para Todos' é um retrato social urbano - 25/06/2026...

‘O Sol Nasce Para Todos’ é um retrato social urbano – 25/06/2026 – Ilustrada

Por vezes uma trama folhetinesca pode resultar em um filme bem diferente do que imaginávamos, pelo disfarce ou atenuação dos elementos que compõem a narrativa e o transformariam num folhetim de fato. É o caso de “O Sol Nasce Para Todos”, mais recente longa do diretor chinês Cai Shangjun.

Um homem sai da prisão depois de alguns anos, condenado por um crime que não cometeu. Quando sua ex-namorada o reencontra, ficamos sabendo que era ela a condutora do veículo. Estavam os dois numa estrada escura, durante uma viagem de férias. Acidentalmente, eles atropelaram um homem e o mataram.

Ele, Wu Baoshu, papel de Zhang Songwen, assume a culpa na justiça, sofrendo na pele as consequências do ato. Ela, Zeng Meiyun, vivida por Xin Zhilei, atriz premiada no Festival de Veneza de 2025, convive com a culpa real do atropelamento, que é tão forte e transformadora quanto a reclusão de Baoshu.

O acidente pesa como um fantasma nesse relacionamento que não tem mais como voltar ao que era, mesmo que eles se esforcem para que isso aconteça – em princípio, não se esforçam muito. Há sempre o peso do passado, essa mancha que não quer se apagar. Por estar em dívida, Meiyun hospeda Baoshu em sua casa, até que ele se recupere, física e mentalmente.

Existem outros complicadores: a mãe dele morreu enquanto ele estava na prisão, sem saber que o filho era inocente; a filha pré-adolescente do namorado atual de Meiyun tenta se suicidar, precipitando o fim desse outro relacionamento; a loja de roupas de Meiyun não está nos melhores dias, o que a obriga a fazer lives diárias para um público implacável, com promoções e demonstrações.

O cinema chinês contemporâneo tem adotado o realismo social como sua principal faceta e “O Sol Nasce Para Todos” não é diferente. As casas têm as paredes manchadas de umidade, as pessoas vivem preocupadas com dívidas, existe uma urgência no filmar que acompanha a condição da população menos privilegiada da sociedade.

Apesar de ter despontado um pouco mais tarde, na segunda década deste século, o realizador Cai Shangjun é da chamada sexta geração do cinema chinês que começou a brilhar nos anos 1990, a mesma de Jia Zhangke, Wang Xiaoshuai e Lou Ye.

Sua estreia na direção se deu em 2007, com “The Red Awn”. Antes, foi roteirista de três filmes de Zhang Yang: “Banhos” e “Spicy Love Soup”, ambos de 1999, além do ótimo “Sunflower”, de 2005.

Diferentemente da quinta geração, a de Zhang Yimou e Chen Kaige, mais voltada para a contemplação e a história da China, a sexta tende a se concentrar nos problemas sociais da China dos últimos 30 anos, e nas inquietações da juventude.

O segundo longa de Cai Shangjun, cujo título internacional é “People Mountain People Sea”, ganhou o prêmio de direção no Festival de Veneza de 2011 e apresentou o diretor ao ocidente. Dos seus quatro filmes, é o que mais guarda semelhanças com o cinema de Jia Zhangke.

“O Sol Nasce Para Todos”, seu quarto longa, parece anunciar uma leve mudança de rota na direção de um cinema mais urbano, que respira a fumaça das ruas e se abala com o barulho cotidiano. Nele, a urbanidade não é só uma ambientação, é também um instrumento de opressão, já que, ao contrário de seus outros trabalhos, ficamos o tempo todo na cidade grande.

De antologia é a interpretação de Xin Zhilei. O prêmio vencido em Veneza vai parecer justo a todos que assistirem ao filme. Atriz de TV e de ao menos um papel anterior de destaque no cinema chinês, no longa “Crosscurrent”, 2016, de Yang Chao, tem uma expressão que consegue transmitir o sentimento de vazio da personagem diante dos obstáculos que enfrenta na vida amorosa e na profissional.

A imagem que fica com o espectador é a de Meiyun andando para lá e para cá, usando um vestido de sua loja, a etiqueta ainda pendurada nas costas, sem saber direito o que fazer após um desencontro e um novo acidente. Imagem de agonia e aflição que traduz bem o que é o filme.

Convém não adiantar as consequências dessa imagem, a não ser que tudo o que vem a seguir tem grande impacto e rara beleza.

Veja a Matéria Completa Aqui!

Notícias Relacionadas

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Vistos

Comentarios