25 junho, 2026
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Como Carlo Ancelotti uniu Pasolini e Bertolucci no futebol – 23/06/2026 – Ilustrada

Na fria manhã do ensolarado domingo de 16 de março de 1975, numa pequena cidade italiana, Pier Paolo Pasolini e Bernardo Bertolucci, dois dos maiores nomes do cinema do século 20, se enfrentavam numa partida de futebol. O time de Bertolucci acabou goleando o de Pasolini, por cinco a dois, graças a um jovem garoto de 15 anos disfarçado de técnico de set de filmagem. Seu nome? Carlo Ancelotti.

“A equipe de Pasolini estava linda com aqueles uniformes vermelhos e azuis brilhantes; ele usava a braçadeira de capitão no braço esquerdo. Foi uma partida fantasma, só com alguns aposentados passeando com seus cachorros [nos arredores]. Erguemos a taça e fomos embora”, disse o atual técnico da seleção brasileira ao jornal italiano Gazzetta dello Sport, em março de 2021, quando revelou ter participado daquela partida há quase cinco décadas.

O episódio entrou para a história por resumir bem as idas e vindas da amizade entre os dois cineastas. Bertolucci se aproximou de Pasolini ainda na adolescência, na época em que o amigo do pai e eminente poeta, cerca de 20 anos mais velho que ele, se mudou para Roma. Ali se iniciava uma relação de admiração entre os dois, que se estreitaria ainda mais, com Pasolini chamando o rapaz para ser assistente de direção de seu filme de estreia, “Accattone – Desajuste Social”, de 1961.

Mas, em 1972, com o lançamento de “O Último Tango em Paris” e as acusações de estupro envolvendo Marlon Brando e Maria Schneider, Pasolini decidiu romper com o pupilo. Eles só voltariam a se encontrar no dia do tal jogo.

Na época, Bertolucci rodava o épico “1900” —ou “Novecento”— em Parma, enquanto Pasolini filmava, em Mântua, “Salò ou Os 120 Dias de Sodoma” —trabalho que se tornaria o mais polêmico da sua carreira. Os estúdios eram próximos e os técnicos e artistas circulavam pela mesma região. O aniversário de Bertolucci se aproximava e, enquanto discutiam os preparativos, alguém que trabalhava no set propôs aquela partida.

No documentário “Centoventi Contro Novecento” —ou 120 contra 1900—, de Alessandro Di Nuzzo, o técnico de som de Bertolucci, Decio Trani, lembra que, se o diretor de “Os Sonhadores” mal sabia se a bola era redonda ou quadrada, Pasolini era não só um notório amante da poesia do futebol, como um excelente jogador.

Não à toa, segundo o jornalista Valerio Curcio, no livro “Il Calcio Secondo Pasolini” —o futebol segundo Pasolini—, o cineasta dizia praticar o esporte quase diariamente. Consta que, em suas viagens, de aldeias na África a regiões remotas do Oriente, Pasolini sempre se misturava aos mais jovens em torno da bola. O esporte nunca deixou de o acompanhar, mesmo quando agonizava com dores terríveis, num campinho de futebol amador na periferia de Roma, meses depois do jogo em Parma.

Isso explica, talvez, a seriedade com que encarou a partida. Se a equipe de Bertolucci improvisou uniformes mais simples, Pasolini mandou fazer camisas listradas, azuis e vermelhas, como as do seu time do coração, o Bologna.

A brincadeira nos jornais do dia seguinte foi a de que as meias coloridas e “psicodélicas” dos jogadores de Bertolucci, feitas de sobras de figurino, garantiram a goleada contra os sóbrios jogadores de Pasolini, por confundir todos eles.

O jogo foi fotografado por Deborah Beer, da equipe de Pier Paolo Pasolini —imagens hoje parte do acervo da instituição Cinemazero, em Pordenone, na Itália, que tem um dos maiores arquivos dedicados ao cineasta no mundo.

Nos bastidores, na verdade, parte da equipe de Bernardo Bertolucci não estava animada com o jogo. Robert De Niro e Gérard Depardieu, protagonistas de “1900”, e outros, não quiseram participar. Diante da falta dos atores e da inabilidade futebolística dos outros, a equipe de Bertolucci elaborou um plano —chamariam dois jovens jogadores da base do Parma e os disfarçariam como ferramenteiros do set.

“Pasolini não acreditou muito na história. Percebeu que nem tudo estava em ordem, mas tinha tanta vontade de jogar que deixou aquela mentira passar”, afirmou Carlo Ancelotti, há cinco anos.

Aquele jogo pôs frente a frente não apenas dois diretores, mas duas visões distintas do cinema —e, em certa medida, da vida. O filme “1900”, afinal, é uma narrativa utópica do século 20, que trata de uma amizade atravessada pela luta de classes. Já “Salò” via a brutalidade da história recente, ao misturar a libertinagem do Marquês de Sade com os horrores do fascismo, numa soma de cenas fortes de abuso sexual e tortura.

“Aquela partida, de certa forma, continha em si todo o século 20, como se fosse o emblema de uma época”, diz o escritor Alberto Garlini no documentário “Centoventi Contro Novecento”.

Durante a partida, Bertolucci permaneceu no banco, fumando um cigarro atrás do outro. Pasolini, ao contrário, com suas chuteiras brilhantes, entrou como um furacão para desestabilizar o jogo —dizem que seu apelido nos campos era “Stukas”, fazendo referência aos bombardeiros de mergulho dos alemães nazistas.

“Pasolini parecia [o jogador holandês] Johan Cruyff. Driblava metade da equipe de ‘1900’. Então, alguém se aproximou de Barone, operador de câmera, e disse ‘temos de parar esse sujeito’”, lembra Decio Trani no filme.

A pancada veio. Barone acertou o diretor em cheio, que ficou se contorcendo no gramado e depois saiu irritado do campo.

Ancelotti marcou um gol e, com ajuda de seu companheiro da base do Parma, conseguiu virar o jogo. O resultado final foi o de cinco a dois para Bertolucci, o que deixou Pasolini ainda mais mal-humorado.

O diretor de “1900” ergueu a taça, os jovens foram embora e os dois times saíram para almoçar —mas o clima foi pesado e silencioso, com cada equipe numa mesa separada. Alguns dizem que, para quebrar o gelo, o aniversariante, numa provocação espirituosa, pediu uma garrafa de Dom Pérignon, encheu a taça que havia recebido naquela manhã e mandou entregar à mesa rival.

A maioria teria caído na gargalhada, mas Pasolini não —nem teria molhado os lábios numa gota daquele champanhe. A história é que ele se manteve em silêncio, desanimado com a derrota.

Ainda assim, aquela partida conseguiu reconciliar os dois diretores novamente. A reaproximação duraria até novembro daquele ano, quando Pasolini foi brutalmente assassinado em Ostia, nos arredores de Roma.

Aquela não seria a última partida da vida do cineasta de “Salò”, mas, pelo menos para os cinéfilos, entraria no panteão das lendas de bastidores, temperada por reviravoltas e pela poesia do futebol.

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