Por muitas décadas, a pioneira da música eletrônica brasileira Jocy de Oliveira foi uma das principais responsáveis por contar a própria história. Durante seus quase 70 anos de carreira, fez questão de recapitular a própria trajetória na peça “Berio Sem Censura” (2012) e nos livros “Diálogos com Cartas” (2014) e “Alucinações Autobiográficas” (2024), entre muitas outras obras.
Agora, a artista multimídia finalmente ganha um retrato de sua trajetória a partir de outro ponto de vista com o filme “Universo Circular”, dirigido por Dácio Pinheiro em colaboração com o Sesc TV. O longa documental terá sua pré-estreia neste sábado, com uma apresentação de Jocy e um bate-papo com o diretor na Estação Motiva Cultural, na Sala São Paulo.
O filme, que terá sua estreia oficial no Brasil no festival de documentários musicais In-Edit, também fez parte da mostra portuguesa IndieLisboa. Com produção e supervisão sonora do músico Paulo Beto, estudioso de longa data da obra de Oliveira, o documentário ainda participará de exibições em festivais ao redor do Brasil e do mundo.
“Creio que com a idade temos mais coragem de nos expormos”, fala Oliveira, que abriu sua casa e a relação com seu parceiro e filho no filme, à Folha por e-mail. “É muito gratificante e um reconhecimento importante ao meu trabalho.”
Oliveira, que completou 90 anos em abril deste ano, mantém uma carreira ativa desde os anos 1950 e tem um currículo extenso. Começou como pianista-intérprete, executando peças de compositores icônicos do século 20 como o russo Igor Stravinsky e o francês Olivier Messiaen, de quem gravou toda a obra para piano.
Mas o gosto pela composição sempre esteve presente. Em 1960, antes de se mudar para os Estados Unidos com o primeiro marido, o maestro Eleazar de Carvalho, ela gravou “A Música Século XX de Jocy” – um álbum de canções acústicas de letras políticas, que ficou conhecido posteriormente como um disco “anti-bossa”. No ano seguinte, ela estreou a peça “Apague Meu Spot Light”, o primeiro espetáculo teatral sonorizado com música eletrônica no Brasil.
Nos anos que se seguiram, gravou o álbum eletrônico “Estórias Para Voz, Instrumentos Acústicos e Eletrônicos”e foi autora e diretora de peças que descreve como “óperas multimídia”. Seu legado, no entanto, permaneceu relativamente restrito à academia e aos círculos nichados da música experimental.
Em “Diálogos com Cartas”, ela escreve: “Menciono alguns fatos que têm ficado à margem da pesquisa de nossos compositores e musicólogos –homens empenhados na reconstrução da música contemporânea brasileira… Afinal, ainda está por ser escrita a musicologia brasileira sob a ótica da mulher e da literatura de gênero.”
Como foi o caso com tantos outros músicos brasileiros, os anos 2010 trouxeram uma redescoberta de sua música em círculos digitais, garantindo que alguns de seus trabalhos fossem relançados por selos brasileiros e internacionais. Por volta de 2017, sua obra chegou ao cineasta Dácio Pinheiro, que preparava um documentário sobre música experimental brasileira.
“Gravei uma entrevista com ela em seu apartamento no Leblon. Fiquei fascinado”, fala o diretor sobre o processo do filme, “Eletronica:Mentes”, lançado em 2019. “Muita gente sentiu o mesmo. Percebi que havia um interesse muito maior nela como personagem no meio de todas aquelas pessoas.”
“Universo Circular” contém entrevistas recentes com a compositora, mas grande parte do material do filme vem de fotos e gravações que Oliveira tinha guardadas –segundo Pinheiro, com organização e zelo impressionantes. O fio condutor do longa é uma filmagem de bastidores da gravação de “Noturno de um Piano”, trabalho audiovisual em que um piano e sua intérprete submergem ao mar.
“Jocy diz que nasceu tocando piano, que ouvia a mãe tocando antes mesmo de nascer”, fala Pinheiro. “Em algum momento, abandonou o instrumento como intérprete, mas ele continuou presente em suas óperas. Colocar o piano ao centro do filme é uma maneira poética de falar sobre esse universo dela.”
A dimensão trágica de “Noturno de um Piano”, que aborda o desaparecimento da manifestação artística erudita no mundo contemporâneo, aparece também em outros momentos do documentário. Numa das cenas, Oliveira fala não acreditar mais em uma possibilidade de futuro utópico.
“O hoje não traz amarras, não alicerça memórias. O hoje é um universo volátil, um tempo vazante pelas rachaduras no desvendar de uma travessia”, fala a artista.
A resposta da compositora a essa volatilidade é trabalhar num universo de memórias no limiar entre a ficção e a realidade –o que ela chama de “universo circular”, o termo que deu nome ao documentário. Mesmo num trabalho criado por outras pessoas, a artista se tornou uma especialista em contar a própria história –além de seu companheiro e filho, que pouco falam, o longa conta somente com a narração de sua protagonista.
“É fascinante ver uma mulher de 90 anos com essa cabeça”, diz Pinheiro. “Fiz várias outras entrevistas, mas no fim achei mais interessante ter as reflexões da própria Jocy.”
