21 setembro, 2026
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Santa Casa resiste, segue de porta aberta e cheia de “pequenos milagres"
Aparecido (à esquerda) comemora trasplante ao lado da médica Rafaella e a esposa Ilza. (Foto: Juliano Almeida)

Uma frase marca a passagem de quem caminha pelos corredores da Santa Casa de Campo Grande, a maior unidade hospitalar de Mato Grosso do Sul: “Deus está aqui”. Diante do volume de pacientes e a gravidade dos casos, não resta dúvida de que o hospital é feito de pequenos milagres.

A Santa Casa de Campo Grande, maior hospital de Mato Grosso do Sul, demonstra resiliência apesar de investigações por fraudes, realizando transplantes, mantendo banco de sangue e UTI neonatal. O paciente Aparecido Vilalba, 58 anos, recuperou a saúde após transplante de rim. O banco de leite, ativo há 24 anos, atende 70 crianças por mês, e a UTI neonatal cuida de bebês prematuros, como Noah, que nasceu com 600 gramas.

Se em 11 de setembro, a Santa Casa foi destino para força-tarefa que investiga fraudes milionárias em contratos, na manhã desta segunda-feira (dia 21), o hospital mostra resiliência e segue de portas abertas para salvar vidas.

Numa entrevista marcada pela emoção, Aparecido Gonçalves Vilalba, de 58 anos, era todo gratidão após o transplante de rim que lhe devolveu esperança. Ele mora em Antônio João e estava hoje no hospital para uma consulta.

“Há três anos e oito meses eu fazia hemodiálise”, conta Aparecido. Para receber o tratamento, precisava viajar de Antônio João para Ponta Porã. A viagem era curta, cerca de 45 minutos, mas se tornava penosa diante das fragilidades impostas pelo tratamento.

Santa Casa resiste, segue de porta aberta e cheia de “pequenos milagres"
Ilza e Aparecido, de mãos dadas, estão casados há 33 anos, (Foto: Juliano Almeida)

 “Tinha dia que eu estava bem, tinha dia que estava muito ruim. O sangue precisa passar pela aquela máquina. Tinha dia que eu chegava, ia direto para a cama e passava o dia todo deitado”, rememora Aparecido.

Mas  na noite de 16 de junho, perto das 23h30, ele recebeu a ligação de um anjo. No caso a médica nefrologista Rafaella Campanholo Grandinete “A doutora Rafaella ligou para mim e disse: “seu Aparecido, saiu um rim para o senhor, o senhor aceita?”.

Aí, ele correu para fazer a melhor viagem da vida. No outro dia cedo, às 6h10, já tinha vencido a distância entre Antônio João e a Capital e estava, pela primeira vez, na Santa Casa de Campo Grande.

“Nunca tinha vindo aqui no hospital. E graças a Deus eu fui abençoado, fui muito bem atendido pela equipe”, diz o paciente. Depois, Aparecido cai em lágrimas e faz um discurso de gratidão a todos que lhe ajudaram.

Santa Casa resiste, segue de porta aberta e cheia de “pequenos milagres"
A médica nefrologista Rafaella Campanholo Grandinete. (Foto: Juliano Almeida)

A emoção contagia Ilza Vilalba, de 69 anos, casada há mais de três décadas com Aparecido. Ela conta que o marido, que tinha perdido a força nas pernas, voltou a caminhar.

Responsável pela ligação que mudou a vida de Aparecido, a nefrologista Rafaella, que trabalha no hospital há uma década, é uma das faces da dedicação do corpo clínico da Santa Casa.

“O procedimento do transplante envolve o hospital inteiro. A cultura do transplante não envolve só os médicos. Mas envolve, inclusive, quem está na recepção. Ele precisa saber que quando o paciente chega, ele tem que parar tudo que está fazendo e internar, que aquele paciente é a prioridade. É uma engrenagem que precisa rodar”, diz a médica.

O procedimento para o transplante de rim dura cerca de quatro horas. “Eu gosto muito do que eu faço. A gente sabe que a Santa Casa por problema financeiro, estrutural e tudo mais. A gente quer que o paciente venha e saia bem, possa ter qualidade de vida fora da hemodiálise. Essa satisfação de vê-los bem não há dinheiro no mundo que pague”, afirma a nefrologista.

Santa Casa resiste, segue de porta aberta e cheia de “pequenos milagres"
O médico Tsutomu Fukuchi, de 82 anos, trabalha há 25 anos na Santa Casa. (Foto: Juliano Almeida)

Emoção de salvar vidas 

No Banco de Sangue da Santa Casa, o médico Pedro Santiago e Souza, de 41 anos, segue a rotina de fazer doações quatro vezes por ano. “Nós sempre ouvimos que está faltando sangue. Como sou saudável, me sinto na obrigação de ajudar. Enquanto o corpo me permitir, estarei doando sangue”.

Responsável pelo local, o médico Tsutomu Fukuchi, de 82 anos, conta que trabalha na Santa Casa há 25 anos. Em tantos anos, até já pensou em trocar de setor, mas o tamanho da solidariedade humana o faz permanecer.

O episódio mais emocionante foi de uma senhora, com sangue B negativo, que viu um apelo pela televisão, na casa de uma vizinha, e decidiu ir doar sangue para ajudar.

Santa Casa resiste, segue de porta aberta e cheia de “pequenos milagres"
“Como sou saudável, me sinto na obrigação de ajudar”, diz Pedro, doador de sangue. (Foto: Juliano Almeida)

“O que mais me comoveu nesses 25 anos foi o dia em que fui atender uma senhora simples. Ela me disse que ficou sabendo do pedido de doação assistindo televisão na vizinha, não tinha passagem para o ônibus, mas a vizinha pagou a ida e volta. Ela veio só para doar sangue, só para ajudar, sem ganhar nenhum tostão”.

 O Banco de Sangue funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 11h. As tipagens mais difíceis de encontrar são A negativo, B negativo e AB negativo.

Vidas frágeis 

Um dos mais emocionantes “milagres” da Santa Casa pesa 600 gramas, veio ao mundo em 16 de setembro e atende pelo nome de Noah. Na UTI neonatal (Unidade de Terapia Intensiva), sob os olhos amorosos da mãe, o bebê que nasceu de 22 semanas (quinto mês de gestação), segue em frente, de gotinha em gotinha de leite materno.

Santa Casa resiste, segue de porta aberta e cheia de “pequenos milagres"
Vitória olha amorosamente para o filho, que nasceu com 600 gramas. (Foto: Juliano Almeida)

Emocionada, Vitória Yzabela Xavier, de 20 anos, conta que tem mais três filhos e não consegue estar sempre no hospital, mas sabe que o pequeno é muito bem cuidado pelos profissionais da Santa Casa. “Não tenho o que reclamar sobre o atendimento”.

Ela lembra que o parto foi muito antes do que esperava e sabia que ele poderia nascer morto. Nesse momento, a voz da jovem fraqueja. Esperançosa, acompanha cada pequena evolução do filho e sonha com o dia em que ele vai com ela para a casa.

Vitória está fazendo rifa de bolos para custear o transporte até o hospital e também precisa de ajuda para montar o enxoval do bebê. O marido perdeu o emprego.

Numa sala com a parede emoldurada por quadro de Nossa Senhora da Amamentação, a supervisora do Banco de Leite da Santa Casa, Isabella Tozzi conta que o serviço existe há 24 anos. Por mês, são atendidas 70 crianças.

Santa Casa resiste, segue de porta aberta e cheia de “pequenos milagres"
Segundo Izsabella, Banco de Leite da Santa Casa atende 70 crianças por mês. (Foto: Juliano Almeida)

“A maioria dos nossos pacientes é recém-nascido prematuros. Existem alguns bebês que não podem receber fórmula infantil, que é produto industrializado. Outra questão é que as mães desses bebês não estão amamentando, não conseguem manter os bebês. O Banco de Leite vai atrás das doadoras, faz o recolhimento do leite na casa, pasteuriza, faz todos os exames para garantir a segurança”.

Para ser doadora de leite, é necessário que a mãe esteja em boas condições de saúde, tenha realizado todos os exames do pré-natal e possua leite excedente, ou seja, que sobra após amamentar seu próprio bebê. A doação é um processo simples e pode ser feita de várias formas:

– Telefone: Ligue para (67) 3322-4174
– WhatsApp: Entre em contato pelo número (67) 98472-5256.

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