24 setembro, 2026
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a costureira que acolhia e deixou um legado

Aos 59 anos, comerciante deixou filhos, neto e uma história de acolhimento, trabalho e dedicação à família

A violência levou Vera cedo demais, mas não apaga a mulher que ela foi
Vera com os filhos, Frank e Danilo, que guardam na memória os pequenos gestos de carinho da mãe. (Foto: Arquivo Pessoal)

Antes de ser lembrada pela violência que interrompeu prematuramente sua vida, Vera Lúcia Rossatte era conhecida pelo cuidado com quem a rodeava. Aos 59 anos, ela deixou dois filhos, um neto e uma história construída ao lado da família, com muito trabalho e uma disposição para ajudar quem estivesse por perto.

Para amigos e vizinhos do Zé Pereira, onde ela morou por mais de duas décadas e construiu parte da vida, Vera já fazia parte da rotina do bairro. Da loja de aviamentos que tocava, fez um lugar onde cabiam conversas e onde amizades se formaram.

Frank Rossatte, o filho mais velho, ainda tenta lidar com a perda da mãe e, por vezes, ainda se refere a ela no presente. Para ele, a essência de dona Vera está nos pequenos detalhes. Da roupa dobrada do jeito que ela gostava, do potinho de feijão guardado com cuidado, dos horários cumpridos à risca e, principalmente, da disposição que tinha para cuidar dos filhos e do neto.

A violência levou Vera cedo demais, mas não apaga a mulher que ela foi
Vera deixa a imagem de uma mulher acolhedora, dedicada à família e sempre disposta a ajudar. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Ela sempre foi uma mãe muito carinhosa, uma avó muito carinhosa. Muito dedicada a nós, pelos dois filhos que ela tem”, conta.

Frank lembra que a vida da mãe foi construída com muito trabalho. Vera saiu cedo de casa, deixou o filho aos cuidados dos avós por um período e foi para Naviraí em busca de oportunidades. “Depois ela veio para Campo Grande e trabalhou no Banco Real, que depois virou o Santander”, lembra.

Quando conseguiu comprar o próprio apartamento, trouxe o filho ainda criança, que até então vivia com os avós no interior. Frank lembra que a infância sempre foi cercada pelo carinho da mãe. “Eu era uma criança muito mimada pela minha mãe. Sempre tinha salgadinhos, coisinhas para me agradar. Tenho muitas lembranças boas nesse sentido”, recorda.

Foi também trabalhando que Vera descobriu a paixão por costurar. Mesmo ainda trabalhando no banco, ela já fazia peças para amigas e familiares. Depois, a costura ganhou mais espaço na vida dela.

A violência levou Vera cedo demais, mas não apaga a mulher que ela foi
O neto, Ravi, era parte da rotina de dona Vera, que fazia questão de estar presente. (Foto: Arquivo Pessoal)

Já no Zé Pereira, começou a perceber que na região faltavam produtos simples, como linhas e zíperes e achou solução com um jeito empreendedor. Como deixava os itens à vista, as vizinhas começaram a perguntar se ela também vendia.

“Minha mãe é esperta. Ela começou a comprar pra ela, mas deixava à vista das clientes que viam e queria comprar. A loja começou assim”, destaca Frank.

Depois vieram os cosméticos, produtos vendidos por revista e, pouco a pouco, a pequena estrutura montada em casa cresceu. Vera também se tornou líder de vendas da Avon e da Natura, trabalho que rendeu uma legião de amigas que carregou até o fim da vida.

Com o tempo, a loja que começou em um salão de casa precisou de mais espaço e chegou a uma das principais avenidas do bairro. Por lá, o comércio se tornou uma extensão da personalidade da costureira.

A violência levou Vera cedo demais, mas não apaga a mulher que ela foi

Vera tinha horários, rotina e um jeito próprio de organizar tudo. Mesmo sendo dona da loja e trabalhando sem funcionários, mantinha o compromisso de chegar no horário.

“Minha mãe era muito dedicada. Então a minha lembrança dela é sempre a dedicação e o cuidado que ela teve com a gente, comigo, com meu irmão e com meu sobrinho”, afirma Frank.

A mãe que era o primeiro colo

Para o filho, nenhuma lembrança profissional supera o lugar que Vera ocupava dentro de casa. Quando enfrentava problemas ou simplesmente precisava chorar, era para ela que ligava.

“Eu sempre contava com minha mãe. Ligava pra ela e tinha a liberdade de dizer que estava passando por algum perrengue, que estava triste, precisando chorar ou simplesmente quando queria um colo’”, lembra.

Frank lembra que Vera era o primeiro ombro amigo e havia intimidade para conversar sobre as dificuldades, ouvir conselhos e também dividir histórias da vida. Era uma relação construída no cuidado cotidiano e presente nos detalhes.

A violência levou Vera cedo demais, mas não apaga a mulher que ela foi
Ao lado dos dois filhos, Vera aparece em um dos registros que guardam a história de uma mãe presente. (Foto: Arquivo Pessoal)

Um legado que continua aberto – Depois da morte, uma das primeiras preocupações dos filhos foi pensar no que Vera gostaria que eles fizessem. Fechar a loja não seria uma opção.

“Ela ralou muito, se esforçou muito para estar aqui. Então hoje eu não podia simplesmente fechar a loja. A gente tinha que fazer esse legado de continuar por ela. Mostrar que ela ainda está viva nas coisas dela”, afirma.

Hoje, permanecer no mesmo lugar é difícil, no entanto, é justamente ali que os filhos percebem o tamanho do carinho que os moradores tinham por Vera.

“Estar na loja é lembrar dela, não só pelo local, mas porque muita gente vem falar coisas boas dela. Tem até gente que acerta algum pagamento pendente ou passa só porque tinha um carinho por ela”, destaca.

A violência levou Vera cedo demais, mas não apaga a mulher que ela foi
Com o filho e o neto, Vera vivia uo papel de mãe e avó dedicada. (Foto: Arquivo Pessoal)

A morte de Vera foi violenta e precoce, aos 59 anos. Um fim que contrasta com a trajetória de alguém lembrada justamente pela capacidade de acolher, apaziguar e estender a mão.

No entanto, para quem conviveu com ela, a última lembrança não precisa ser a da violência que interrompeu sua vida. “Ela era uma mulher incrível”, finaliza o filho.

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