O artista converte galhos encontrados pela cidade em esculturas que carregam um pouco de si mesmo

Antes de ganhar forma nas mãos de Aldo Torres, muita coisa poderia simplesmente passar despercebida. Apenas objetos encontrados pelo caminho e materiais sem função aparente entraram no repertório do artista como matéria para criação.
O artista e professor Aldo Torres, de 45 anos, natural de Bela Vista (MS), transforma madeiras descartadas em esculturas, rejeitando o conceito de reciclagem em favor da ideia de segunda oportunidade. Autodidata, aprendeu a arte com hippies e artesãos nas ruas, iniciando na escultura em 2002. Sua primeira exposição ocorreu em 2009, apoiada por mais de 20 pessoas, o que o levou ao curso de artes da UFMS em 2012. Hoje, possui cerca de cem obras feitas com materiais encontrados nas ruas.
Aos 45 anos, o professor de arte natural de Bela Vista (MS) carrega para as esculturas um olhar construído longe dos espaços tradicionais de exposição e próximo da experiência de quem aprendeu a produzir e vender arte na rua.
Essa relação começou a ser desenhada ainda na adolescência. Aldo tinha 13 anos quando o irmão deixou a casa da família para seguir a vida como desenhista. A partida despertou nele a ideia de que também precisaria desenvolver uma habilidade para conquistar independência. O caminho escolhido não surgiu de cursos formais ou de ateliês estruturados, mas do contato com hippies e artesãos que circulavam pelas cidades produzindo com aquilo que estava ao alcance das mãos.
Foi nesse ambiente que aprendeu a fazer brincos, pulseiras e peças com sementes. Só que havia um problema bastante concreto: quase todo mundo produzia coisas parecidas. Em meio a dezenas de artistas disputando compradores nas calçadas, Aldo percebeu que precisava encontrar uma linguagem diferente. A resposta veio em 2002, quando começou a experimentar a escultura na madeira. Dois anos depois, chegou a Campo Grande e manteve a técnica como parte central de sua produção.
“Eu comecei a fazer escultura na goiabeira. Porque a goiabeira é uma madeira mole, então é muito simples, qualquer ferramenta você consegue fazer algum trabalho com ela. E também por conta da cor. É uma madeira branca, então qualquer coisa que você fizer nela você vai conseguir pintar. Eu usava muito o urucum”.
Não é reciclagem – Embora muitos dos materiais usados possam ter uma vida anterior, Aldo rejeita a ideia de resumir seu trabalho à reciclagem. O interesse está menos em recuperar algo descartado e mais em enxergar outras possibilidades para aquilo que encontra.
Hoje morando em apartamento, ele relembra o período em que andava com os hippies como uma espécie de formação artística fora das salas de aula: um tempo em que praticamente qualquer coisa encontrada pelo caminho podia deixar de ser apenas objeto e se transformar em arte.
“Reciclagem é uma palavra que eu não consigo encaixar no meu trabalho. Fico pensando na madeira no sentido de que pego algo que não é arte e transformo em uma obra de arte. Na minha mente, é isso. Não entendo de psicologia, mas fico viajando e pensando no seguinte”, conta Aldo.
Entre as segundas chances, uma delas carrega uma memória familiar. Inspirado no avô, que trabalhou em comitivas e gostava de passar o tempo na rede contando histórias, o artista reuniu pedaços de madeira encontrados e descartados para construir a cena. Um galho de eucalipto recolhido na Praça do Preto Velho virou o esteio da rede, enquanto outros fragmentos, inclusive de limoeiro, completaram a composição.
“Meu avô faleceu há menos de um ano. Quando estava em casa, gostava de ficar na rede contando histórias. Essas madeiras foram todas catadas por aí, eu nunca comprei madeira. Algumas são tortas, seriam descartadas porque procuram uma madeira perfeita, lisinha. Aqui, elas ganharam uma segunda oportunidade e viraram uma obra de arte”.
A ideia de dar uma segunda oportunidade à madeira também reflete a própria trajetória de Aldo. Antes de viver da arte, ele passou por dificuldades financeiras e chegou a morar em kitnets, período em que deixou o emprego para tentar se dedicar às esculturas.
Sem dinheiro para ferramentas, móveis ou uma faculdade, produzia como conseguia até que um grupo de mais de 20 pessoas conheceu seu trabalho e decidiu ajudá-lo. O apoio abriu caminho para sua primeira exposição, em 2009, e, três anos depois, para o ingresso na faculdade de artes na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).
“Eu não gosto de pensar em reciclagem, mas em uma segunda oportunidade. Mais de 20 pessoas se uniram para me ajudar a fazer uma exposição e uma faculdade. Alguém me deu essa força e eu virei artista. De certa forma, foi o que aconteceu comigo também”.
Essa relação entre a própria trajetória e o material que escolheu tornou-se parte do processo criativo de Aldo. Ele estima ter cerca de 100 trabalhos, todos feitos total ou parcialmente com madeira encontrada nas ruas, em galhos descartados às margens de avenidas e até em resíduos levados pela água de córregos. Com ferramentas simples, como o canivete, o que poderia terminar como descarte ganha outra função em suas mãos.
“Não considero reciclagem porque não tem como reciclar uma pessoa, você dá uma oportunidade para ela. Eu não quero ser do grafite, não quero ser um artista acadêmico, não quero ser da aquarela. Porém, quero que a minha escultura não esconda esse lado de que um dia fui artesão de rua. Essa é a minha forma de fazer”, finaliza.
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