O uso frequente de calçados está associado a mudanças na estrutura interna dos ossos do tornozelo, segundo um estudo publicado em setembro de 2026 no Journal of Anatomy. A pesquisa analisou ossos de pessoas que usavam sapatos regularmente e de indivíduos que habitualmente caminhavam descalços, identificando variações na organização do tecido ósseo relacionadas aos padrões de carga mecânica.
O trabalho, intitulado “The impact of footwear on human talar trabecular architecture“, foi conduzido por Hannah N. Farrell e outros colaboradores. Os pesquisadores investigaram o tálus, osso localizado na articulação do tornozelo que conecta a perna ao pé e participa da distribuição do peso corporal durante a caminhada.
Para realizar a análise, a equipe examinou 56 amostras ósseas de adultos. O grupo que utilizava calçados regularmente era composto por 40 indivíduos de coleções osteológicas dos Estados Unidos. Os outros 16 participantes pertenciam a populações habitualmente descalças, incluindo grupos das ilhas Andaman, Khoisan e Aka. Os pesquisadores utilizaram exames de microtomografia computadorizada de alta resolução para observar a arquitetura trabecular do tálus.
As trabéculas são pequenas estruturas que formam uma espécie de rede interna no osso e respondem às forças mecânicas às quais ele é submetido ao longo da vida.
Diferenças na estrutura óssea
Os resultados apontaram diferenças na organização e na distribuição do tecido ósseo entre os dois grupos. Os indivíduos que utilizavam calçados apresentaram maior grau médio de anisotropia, uma medida que indica o quanto as estruturas internas estão organizadas em direções preferenciais.
Na prática, o resultado sugere que as trabéculas do tálus dessas pessoas tendem a apresentar uma organização direcional mais acentuada. Segundo os autores, esse padrão pode estar relacionado a uma distribuição mais restrita das forças mecânicas durante a caminhada, possivelmente influenciada pelo uso habitual de calçados.
O estudo também identificou maior fração média de volume ósseo no grupo que utilizava sapatos. Essa diferença foi atribuída principalmente à maior espessura das trabéculas, enquanto a quantidade e o espaçamento dessas estruturas foram, em geral, semelhantes entre os grupos.
A distribuição do tecido ósseo também variou conforme a região do tálus. Entre os indivíduos calçados, houve maior concentração relativa de tecido ósseo nas regiões medial e posterior do osso. Já no grupo que caminhava habitualmente descalço, os valores foram maiores na cabeça e no colo do tálus.
Essas diferenças podem refletir variações nas posturas do tornozelo e nos movimentos realizados habitualmente. Os pesquisadores destacam, porém, que fatores como o tamanho corporal, a estatura, as atividades cotidianas e as estratégias de subsistência também podem influenciar a estrutura óssea.
Impactos para o estudo da evolução humana
Os resultados têm implicações para a paleoantropologia, área que investiga a evolução humana a partir de evidências fósseis. A arquitetura interna dos ossos pode fornecer pistas sobre como nossos ancestrais se movimentavam, já que o tecido ósseo responde às cargas mecânicas acumuladas durante a vida.
Segundo os pesquisadores, indivíduos de sociedades industrializadas que utilizam calçados regularmente podem não representar, sozinhos, a melhor referência para interpretar os padrões de locomoção de hominídeos antigos.
A comparação com populações que caminham habitualmente descalças amplia as possibilidades de análise das variações naturais entre seres humanos e ajuda a estabelecer parâmetros para investigar fósseis de ancestrais humanos.
Os autores ressaltam, contudo, que o uso de calçados não é o único fator capaz de explicar as diferenças encontradas. A amostra de indivíduos descalços é menor, e as populações estudadas apresentam diferentes características ambientais e comportamentais. Por isso, novas pesquisas são necessárias para separar a influência dos calçados daquela exercida por outros aspectos do estilo de vida.
O trabalho contribui para demonstrar que hábitos cotidianos podem estar associados a diferenças mensuráveis na estrutura interna dos ossos. Ao considerar essas variações, os cientistas podem aprimorar as comparações entre seres humanos atuais e ancestrais e desenvolver interpretações mais precisas sobre a evolução da caminhada bípede.
*Sob supervisão de Manuella Dal Mas
