Escrevo estas palavras movido por uma profunda indignação após ler um artigo que, de maneira que considero extremamente preocupante, elogiava soldados nazistas e apresentava determinados aspectos do regime nazista de forma aparentemente positiva ou romantizada. Ao me deparar com esse tipo de abordagem, confesso que fiquei profundamente incomodado. Não consigo permanecer indiferente diante da tentativa de transformar responsáveis por uma das maiores atrocidades da História em figuras dignas de admiração. Foi justamente essa indignação que me levou a escrever o que segue — não por ódio gratuito, mas por respeito às milhões de vítimas, aos sobreviventes e à própria memória histórica da humanidade.
Esses miseráveis colheram aquilo que plantaram. E, antes de qualquer tentativa de romantizar ou demonstrar “pena” por criminosos nazistas, talvez fosse necessário fazer uma coisa muito simples: ESTUDAR A HISTÓRIA.
Não foi apenas Hitler. O regime nazista não teria conseguido colocar em prática tamanha máquina de perseguição, terror e extermínio sem a participação, colaboração, conivência, oportunismo e silêncio de uma parcela significativa da sociedade alemã e das estruturas do Estado.
Estudem a Noite dos Cristais. Em 1938, judeus foram brutalmente perseguidos, espancados e presos, enquanto sinagogas, residências e estabelecimentos eram destruídos e saqueados. Houve participação direta de agentes do regime e também colaboração e aproveitamento por parte de pessoas comuns. Aquilo não foi simplesmente uma decisão de um único homem sentado em um gabinete. Foi a materialização de uma ideologia de ódio que havia sido disseminada pela sociedade.
Depois, estudem o que aconteceu nos anos seguintes.
Judeus, pessoas negras, comunistas, sindicalistas, homossexuais, pessoas com deficiência, povos Roma e Sinti e tantos outros considerados “indesejáveis” pelo regime foram perseguidos, desumanizados, privados de direitos, presos, torturados, explorados e assassinados. Muitos tiveram seus bens confiscados, suas famílias destruídas, suas liberdades arrancadas e suas vidas reduzidas a números. E tudo isso em nome de uma absurda e criminosa ideia de “pureza racial” e de uma suposta superioridade ariana. É justamente aí que minha indignação aumenta quando vejo alguém tentando transformar criminosos nazistas em vítimas dignas de admiração ou compaixão.
Vítimas foram as pessoas perseguidas e assassinadas pelo nazismo.
Não podemos inverter os papéis da História
Não estamos falando simplesmente de soldados que “perderam uma guerra”. Estamos falando, em muitos casos, de pessoas que integraram uma estrutura responsável por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e pelo genocídio de milhões de seres humanos. E não venham me dizer que isso é “coisa do passado”. A História não é um museu onde podemos escolher apenas as partes que nos agradam. Ela precisa ser lembrada justamente para que o ser humano reconheça até onde pode chegar quando o preconceito, o racismo, o antissemitismo, a intolerância e a desumanização passam a ser tratados como virtudes.
Eu não sou judeu. Não sigo uma religião. Mas sou negro, tenho orgulho de quem sou e sei muito bem que, dentro da lógica racista e criminosa do nazismo, pessoas como eu também eram consideradas inferiores e indesejáveis.
Por isso, não consigo compreender — e muito menos aceitar — qualquer tentativa de romantizar, admirar ou glorificar uma ideologia que transformou seres humanos em alvos simplesmente por sua origem, aparência, crença, condição ou identidade.
Não existe heroísmo no nazismo. Existe crime!
Não existe glória em uma ideologia que precisou de campos de concentração, câmaras de gás, execuções, tortura, fome, trabalho forçado e extermínio para tentar impor sua visão de mundo.
E há algo ainda mais perigoso: quando uma sociedade começa a tratar esse passado como algo admirável, engraçado ou digno de nostalgia, abre-se novamente espaço para que velhos discursos de ódio sejam normalizados. É por isso que devemos estudar. É por isso que devemos lembrar. É por isso que devemos denunciar.
NUNCA devemos permitir que a História seja apagada, distorcida ou romantizada.
Quem planta ódio pode até acreditar, por algum tempo, que está construindo poder. Mas a História já mostrou o resultado dessa colheita.
Que ninguém se esqueça:
Racismo gera violência.
Ódio gera violência.
Desumanização gera violência.
E uma sociedade que aceita a desumanização do outro pode, amanhã, descobrir que ela mesma se tornou vítima daquilo que permitiu crescer.
Portanto, antes de sentir “pena” de criminosos nazistas ou transformar seus símbolos em objeto de admiração:
1. estudem as vítimas;
2. estudem sobre os sobreviventes;
3. estudem os campos de concentração;
4. estudem as milhões de vidas destruídas por esse sistema.
Porque conhecer a História não é cultivar ódio. É impedir que o ódio volte a ser tratado como virtude! E essa é uma responsabilidade de todos nós. NUNCA MAIS…
(*) Flávio José da Silva é engenheiro.
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