2 julho, 2026
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Ney Matogrosso ganha mostra que exalta seu legado – 02/07/2026 – Ilustrada

Ney Matogrosso parece estar em transe. Os olhos miram fixamente o chão, onde flutua uma fumaça que empresta ares ritualísticos ao cenário. Os braços estão abertos em um movimento teatral e convulsivo, como se ele fosse o personagem de uma pintura de Caravaggio.

A exemplo das criações do mestre barroco, o artista personifica nessa imagem a luz e a sombra, o espanto e a beleza, o sagrado e o profano. Na fotografia de Madalena Schwartz, Ney Matogrosso é um corpo em ebulição.

Essa corporalidade incendiária e contraditória é tema agora de uma exposição no instituto cultural Solar, no centro do Rio de Janeiro. Intitulada “Prefiro Ser”, a mostra reúne vídeos, pinturas, fotografias e esculturas para marcar os 85 anos do cantor, um dos nomes mais celebrados do cancioneiro nacional.

Ney despontou na cena musical nos anos 1970 com o grupo Secos e Molhados, grupo que ele formou ao lado de João Ricardo e Gérson Conrad.

O trio criou uma parceria tão efêmera quanto fulgurante, empilhando sucessos como “Fala”, “O Vira” e “Sangue Latino” entre 1973 e 1974. Eles se notabilizaram também por fazer apresentações com o rosto pintado e trajando roupas insinuantes em plena ditadura militar.

Essa postura disruptiva acompanhou Ney após ele sair da banda. Prova disso é o disco “Bandido”, álbum que se faz presente na exposição por meio de um cartaz.

Lançado em 1976, o trabalho traz já em seu título uma celebração à marginalidade, algo que Hélio Oiticica havia feito oito anos antes com a célebre bandeira-poema “Seja Herói, Seja Marginal”.

“Ney é um artista que bota o próprio corpo em risco, como se ele fosse um objeto de performance, encantamento e desafio”, diz Bernardo Mosqueira, curador da mostra ao lado de Matheus Morani e Pablo León de la Barra.

“Naquele contexto de repressão, ele era visto como uma força que precisava ser reprimida, oprimida e controlada, mas, ao mesmo tempo, fazia performances de uma força imagética tão grande que os próprios conservadores ficavam encantados”, diz Mosqueira.

A exposição se debruça justamente sobre o caráter libertário e subversivo de Ney. Isso, porém, não se dá de forma literal, uma vez que o projeto não tem pretensões biográficas. A ideia é contar a trajetória do artista por meio de obras que sirvam de metáfora para a sua personalidade.

Logo na entrada da mostra, por exemplo, vemos uma escultura de Exu –o orixá mensagem, força motriz por trás do movimento e da transformação. Concebida por Chico Tabibuia, a obra traz a entidade com seios e uma protuberância em formato fálico entre as pernas. Para o curador, esse trabalho sintetiza a recusa do artista em ser rotulado.

“Ney mistura elementos que vêm do reino animal, mineral, vegetal, do gênero feminino e masculino, como se mostrasse para a gente que a ordem do mundo é arbitrária e que ela pode ser diferente.”

A natureza camaleônica do cantor pode ser observada em uma grande pintura concebida pelo coletivo Avaf.

A obra retrata Ney usando itens de diferentes fases de sua carreira. Há desde o chapéu do disco “Bandido”, passando pela flor do álbum “Pois É” até chegar aos chifres de carneiro que o artista usou na capa de “Água do Céu – Pássaro”, seu primeiro trabalho solo, lançado em 1975.

Ao longo da carreira, ele se notabilizou por sua presença incendiária sobre o palco, onde ainda hoje exala sensualidade, malemolência e magnetismo. Essa verve performática pode ser sentida na exposição por meio da escultura “Orvalho”, em que Samuel Alves de Jesus criou uma estrutura amorfa usando sal, resina e calcita.

Em contato com a umidade, o sal faz surgir gotículas de água na superfície da escultura, de modo que ela parece estar coberta de suor.

De certa forma, é uma metáfora para o corpo inquieto e transpirante que Ney exibe em suas apresentações.

A mostra também joga luz sobre corporalidades que desafiam normas e subvertem padrões de comportamento, em sintonia com o que o cantor fez ao longo da carreira. Um dos destaques desse eixo são fotografias de uma performance que Antonio Manuel realizou em 1970.

À época, o artista inscreveu o próprio corpo como objeto artístico no Salão de Arte Moderna, um dos principais prêmios de arte daquele período. Embora a inscrição tenha sido recusada pelos jurados, decidiu comparecer à exposição mesmo assim. No entanto, havia um detalhe –ele estava completamente nu.

Intitulada “O Corpo é a Obra”, essa é considerada uma das performances mais importantes da arte brasileira. “Ele bota o corpo a jogo tanto em oposição às instituições culturais quanto em oposição aos militares”, diz Mosqueira.

Quem também pôs o próprio corpo à prova foi Flávio de Carvalho. Em 1956, o artista desfilou pelas ruas de São Paulo usando saia, sandália e blusa bufante. Conhecida como “New Look” ou traje de verão, essa vestimenta foi pensada para ser usada no calor dos trópicos.

Na mostra, as imagens da performance retratam o artista caminhando altivo com as pernas de fora cercado por uma multidão de homens engravatados. O grupo observa Carvalho como se ele fosse um animal exótico.

As roupas que Ney escolhia usar também confrontavam normas sociais. Na exposição, uma imagem retrata o artista trajando calça jeans justíssima. Outra fotografia mostra o cantor com um quepe de couro e uma regata metalizada, à maneira dos praticantes de sadomasoquismo.

“A exposição é muito sobre como o Ney inspira a gente a questionar as normas de gênero, de sexualidade e de comportamento”, diz Mosqueira.

Essa postura insubmissa e libertária, porém, não foi confrontada apenas pela opressão da ditadura militar. A partir dos anos 1980, a comunidade LGBTQIA+ se viu ainda mais estigmatizada em razão da epidemia de HIV, chamada pejorativamente à época de “câncer gay” .

O artista perdeu pessoas próximas por complicações relacionadas à doença, como o marido Marco de Maria e o ex-namorado, o cantor Cazuza.

A mostra faz referência a esse período em obras concebidas por nomes como Leonilson e Feliciano Centurión. Ambos os artistas traduziram os seus anseios e temores no calor do momento, enquanto viviam com a enfermidade no auge da epidemia.

Uma das obras mais pujantes desse núcleo é o vídeo “Prelúdio de uma Morte Anunciada”, de Rafael França –um dos pioneiros da videoarte no Brasil.

Na gravação, ele e o namorado trocam beijos, abraços e toques ao som de uma ária da ópera “La Traviata”. Entre um afago e outro, surgem na tela nomes como Alex, John, Mark e Stephen. Todos eles morreram em decorrência do HIV, inclusive o próprio artista.

Após cerca de quatro minutos, o vídeo chega ao fim com uma frase. “Above all, they had no fear of vertigo” —acima de tudo, eles não temeram a vertigem. É uma afirmação do amor e da coragem diante da dor e do medo.

“Eles abriram caminho para toda uma geração”, diz o curador. “Ney talvez seja um grande exemplo daqueles que não temeram a vertigem.”

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