18 junho, 2026
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Juliana Lapa exalta o feminino em obras densas – 17/06/2026 – Ilustrada

“O feminino não é algo para onde eu estou apontando, ele é o emissor desse trabalho”, afirma a artista Juliana Lapa. Entre o onírico e a realidade concreta da experiência feminina, a artista pernambucana, em sua primeira exposição individual numa casa em São Paulo, apresenta o feminino como força de resistência e protagonismo.

Em cartaz na galeria Claraboia, na zona oeste da cidade, a mostra “Olga Não Me Deu Nada como Herança” é inteiramente composta por obras inéditas de Lapa e se destaca pela variedade de técnicas —desde o grafite e o lápis de cor até a tinta a óleo e a estratigrafia. “Vou adicionando para depois tirar. É quase como limpar uma escultura”, diz Lapa.

Os trabalhos também apostam numa abundância de detalhes, lembrando os delírios do holandês Hieronymus Bosch, em composições densas e de grande complexidade visual. “São trabalhos que têm muitos acontecimentos simultâneos, exigem uma destreza para olhar para tudo”, afirma a curadora Galciani Neves.

Lapa se aproxima ainda desse artista do século 15 —que viraria uma das maiores referências para a vanguarda surrealista— nas temáticas. Mas se Bosch explorava, por meio de trípticos, o sagrado e o profano de maneira compartimentada, a pernambucana junta tudo, combinando, em suas obras, o paradisíaco e o infernal —sempre enaltecendo a potência feminina.

Mesmo em obras mais diabólicas, como a tela “Trabalhos das Entranhas”, parece haver sempre uma dubiedade, como signos de morte que, ao mesmo tempo, carregam a possibilidade de vida. “É uma entranha que tem brilho, que está viva e é pulsante, não é uma putrefação”, diz Lapa.

Para além das vísceras, as dissecações são uma visão frequente no trabalho da artista. Mas não há qualquer rigor científico ou estudo anatômico para a produção dessas imagens; Lapa se nutre, ao contrário, da fabulação, para compor as peças. “É o dentro imaginado”, diz a pernambucana.

Outra influência nas obras de Lapa é o poeta e pintor britânico William Blake, referência do romantismo na virada do século 18 para o 19. Muitas telas da artista destacam uma caligrafia, uma espécie de escrita assêmica, que está mais preocupada em se incorporar à imagem do que com a legibilidade em si —assim como os livros dele que tentavam fundir essas duas modalidades.

“É uma escrita que vem se confundindo com entranhas, nuvens e partes do corpo, sem a preocupação de dizer que aquilo é uma escrita”, afirma a curadora.

Para Lapa, a dimensão política de seu trabalho é um elemento central. Ela diz usar a arte para exercitar uma luta e, por meio das muitas mulheres que aparecem em suas telas, apresentar um corpo feminino capaz de ser livre e de cortar os ciclos de violência.

“Se esse corpo tem autorização pública para ser violado, na arte ele também tem uma autorização poética para ser livre”, diz Neves.

Um elemento recorrente nas obras expostas é a dança dos esqueletos. Essa alegoria, criada no final da Idade Média, e mais conhecida como “dança macabra”, se tornou comum nas manifestações artísticas do Ocidente ao simbolizar a igualdade, independentemente de gênero ou status social —uma sátira que dialoga com a produção de Lapa.

Quando questionada sobre de que forma o sagrado se apresenta em sua obra, ela responde que isso se reflete na reorganização hierárquica dos elementos. “Quem é que aparece no topo ali? É a natureza e as mulheres”, diz.

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