Eleição de Daverson e voto de Cassy Monteiro revelam força nacional que mexe no equilíbrio da direita em MS

Eleito pelo PL em 14º lugar num colégio de 24 deputados, o vereador Daverson Matos chega no ano que vem à Assembleia Legislativa como uma novidade na política de Mato Grosso do Sul e com um capital raro num universo de parlamentares frequentemente vinculados às estruturas tradicionais de poder: disputou e venceu sem apoio da máquina partidária, o que lhe dá liberdade para, se quiser, exercer o mandato com independência em relação aos caciques da direita bolsonarista, como o senador eleito Reinaldo Azambuja, líder do grupo que controla a política estadual.
Eleito deputado estadual pelo PL em Mato Grosso do Sul com 30.604 votos, o vereador Daverson Matos, de Rio Brilhante, venceu sem apoio da máquina partidária. Segundo estimativas, mais de 90% dos votos vieram da influência do deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais. Para o cientista político Paulo Catanante Júnior, o resultado indica que um padrinho nacional pode substituir estruturas tradicionais e dá ao novo parlamentar margem para atuar com independência, o que representa um desafio ao senador eleito Reinaldo Azambuja, líder do grupo que controla a política estadual.
As estimativas, tanto em Campo Grande como em Rio Brilhante, sua cidade, apontam que mais de 90% dos 30.604 votos recebidos por Daverson podem ser creditados à força de Nikolas Ferreira (PL-MG), o deputado federal mais votado do país, que construiu sua popularidade nas redes sociais com provocações, lacrações, embates políticos e pautas conservadoras.
Diretor do instituto Novo Ibrape, o cientista político Paulo Catanante Júnior diz que a eleição de Daverson não estava nas projeções que acompanhava, o que surpreendeu os especialistas pelo reflexo de sua releição no aumento inesperado da bancada do PL. “Na verdade, dentro da minha análise, eu achei que ele não entraria”, afirma. Não havia expectativa de eleger nove deputados. “A gente enxergava o PL com sete vagas.”
A surpresa tem uma explicação, na avaliação do analista: o alcance nacional de Nikolas, capaz de projetar um candidato pouco conhecido fora de sua região. “Um cara que é de Rio Brilhante conseguir essa quantidade de voto na Capital (11.793) é uma soma da influência do Nikolas e uma soma do poder das redes que a gente às vezes subestima”, diz Catanante. Para ele, o apoio do deputado mineiro foi decisivo para levar Daverson à Assembleia.
“O cara conseguiu projetar não só aqui, mas também em outros estados, nomes que eram desconhecidos. E abriu os olhos das pessoas para nomes que ninguém sabia”, afirma. Catanante diz que não esperava que Nikolas tivesse tanta influência em Mato Grosso do Sul.
O ex-prefeito de Rio Brilhante Sidney Foroni, do MDB, também atribui a votação ao padrinho nacional. “O Daverson se elegeu na onda do Nikolas, mas não se mostrou agressivo nas redes sociais. Não é daqueles bolsonaristas radicais. É evangélico e muito respeitoso. Um guri bom”, afirma.
Foroni deu emprego a Daverson em sua administração e depois o contratou como funcionário e sócio em seu escritório de advocacia. Segundo ele, o deputado eleito recebeu cerca de 3.100 votos em Rio Brilhante, município com aproximadamente 26 mil eleitores, mas não se pode dizer que tenha sido bem votado na terra natal. A força que lhe garantiu uma das maiores votações em Campo Grande, onde era desconhecido, veio de Minas. “Quem não acreditava na mídia do Nikolas quebrou o queixo”, diz.
Padrinho substitui máquina
Catanante enxerga nesse resultado uma mudança na forma de construir candidaturas dentro da direita. “Eu acho que ficou claro que um padrinho nacional conseguiu substituir uma estrutura mais tradicional”, afirma. Para ele, as redes sociais permitiram que Daverson alcançasse eleitores de Campo Grande sem precisar ter a mesma presença local dos políticos tradicionais. O analista também identifica um movimento de jovens cristãos conservadores que começam a ocupar espaço na política. “Parece que é uma nova liderança da direita, jovem”, diz.
A diferença em relação ao ciclo anterior, segundo Catanante, é que a identificação eleitoral já não depende exclusivamente de associar uma candidatura à imagem de Jair Bolsonaro. Nikolas passou a exercer influência própria, escolhendo nomes que recebem seu apoio e concentrando neles a força de sua audiência. “Eu acho que o Nikolas acabou influenciando mais, só que foi muito segmentado. Ele não chegou e apoiou todo mundo. Ele escolheu quem apoiar”, afirma.
É nesse ponto que a eleição de Daverson pode ter consequências para a política estadual. “É uma vitória de um cara que não tem a máquina”, resume Catanante. Na avaliação do analista, o deputado chega à Assembleia sem depender, na mesma medida que outros parlamentares, de prefeitos, estruturas financeiras e lideranças tradicionais. “Ele pode ser independente.”
A autonomia, porém, ainda terá de ser demonstrada no exercício do mandato. Daverson não precisa romper com o PL nem se opor a Azambuja para construir uma posição própria. Mas sua votação lhe dá margem para negociar com a direção estadual sem necessariamente dever a ela o capital eleitoral que o levou à Assembleia.
“Eu acho que o Reinaldo vai ter que ter inteligência pra saber lidar com isso”, afirma Catanante. Para ele, o novo deputado representa um ativo eleitoral para o partido, sobretudo pela capacidade de alcançar o público jovem conservador, uma estratégia de comunicação nova no estilo sul-mato-grossense de fazer política. “Ter uma pessoa independente ali pode captar voto pro partido”, acrescenta.
Cassy Monteiro
A influência de Nikolas também aparece na candidatura de Cassy Monteiro a deputada federal. Embora não tenha sido eleita, ela recebeu 44.865 votos, terminou em 11º lugar em Mato Grosso do Sul e superou políticos veteranos como Luiz Ovando (PP) e Geraldo Resende (União Brasil), que não se reelegeram. Também ficou à frente do Tenente Portela, um dos nomes mais associados a Jair Bolsonaro no Estado, que recebeu 5.057 votos, cerca de 8,8 vezes menos que Cassy. Ela se tornou primeira suplente do PL.
No cenário nacional, a soma parcial dos votos de Nikolas e de 19 aliados eleitos para a Câmara dos Deputados e assembleias legislativas chega a cerca de 11,3 milhões, o que dá uma dimensão da capilaridade eleitoral construída pelo parlamentar. O núcleo inclui 13 deputados federais e seis estaduais. Entre os nomes de maior destaque estão Lucas Pavanato (PL-SP), que recebeu cerca de 3,04 milhões de votos; André Fernandes (PL-CE), com 684 mil; Lucas Polese (PL-ES), com 419 mil; e Guilherme Kilter (Novo-PR), com 269 mil. Nikolas também colou sua imagem à de dois senadores eleitos (Sávio Brandão, em Minas Gerais, e Gustavo Gayer, em Goiás) e à de dois governadores eleitos: o gaúcho Luciano Zucco e o fluminense Douglas Ruas.
Um espinho
A “invasão” de Nikolas Ferreira a Mato Grosso do Sul como um padrinho nacional que se impôs e substituiu lascas de uma das estruturas tradicionais mais fortes do país, passa a ser um espinho no sapato de Reinaldo Azambuja. O PL abriga, mas não necessariamente controla, o capital eleitoral de Daverson, que transformou a projeção de uma liderança nacional em votação própria. “O Reinaldo não esperava que ele fosse eleito”, diz Catanante.
Foroni tem uma interpretação assustadoramente realista sobre a força desse campo político no Estado. “O eleitor de direita não quer saber se o Flávio Bolsonaro é acusado de corrupção. Se xingou o Lula, fala que vai extirpar o PT, que tem que matar bandido, usar arma, é isso que ele quer ouvir”, afirma.
Para o ex-prefeito, a identificação ideológica tem pesado mais que o currículo dos candidatos. “Pode olhar para os que foram eleitos: tem gente que está enlameado e foi eleito sem gastar dinheiro. Falam assim: ‘ele é contra o Lula? Então é nesse que vou votar’. O eleitor de hoje não quer saber qual é a proposta de governo.”
A avaliação vem de um político que também carrega seu próprio histórico judicial: Foroni foi condenado por improbidade administrativa e está inelegível até 2028. Em 2024, elegeu o filho, Lucas Foroni, atual prefeito de Rio Brilhante. Daverson, por sua vez, responde, junto com outros vereadores, a processo por litigância de má-fé relacionado à tentativa de anular a eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal em 2025.
A eleição de Daverson coloca um desafio para Azambuja: como incorporar à articulação partidária um deputado que chegou ao mandato por uma força eleitoral externa às estruturas tradicionais locais e que, por isso, pode reivindicar liberdade para agir?
