O risco de o atual surto de Ebola atingir o Brasil é considerado muito baixo pelas autoridades de saúde, não havendo motivo para preocupação imediata no país.
A avaliação é de André Bon, coordenador e head de Infectologia do Hospital Brasília (Rede Américas), que destaca que a estrutura de vigilância epidemiológica nacional está preparada, embora não existam orientações para procedimentos específicos voltados à doença neste momento.
O cenário exige atenção global devido às dificuldades de acesso e diagnóstico na região afetada na África, onde a OMS (Organização Mundial da Saúde) relata complexidades para confirmar os óbitos causados pelo vírus.
Segundo o infectologista, o histórico recente serve como um indicativo de segurança para o país. Ele relembra que, mesmo durante a maior crise sanitária provocada pelo vírus na história, o Brasil passou ileso.
“A gente já teve outras epidemias de ebola, algumas, a de 2014, com um volume muito maior de casos e acometendo três países diferentes, Guiné, Libéria e Serra Leoa, e a gente não teve casos chegando ao Brasil, ou tampouco um número de casos relevante chegando a outras partes do mundo”, pontua Bon.
Naquela ocasião, o avanço da doença forçou uma mobilização global, o que difere do momento atual, em que a atenção está voltada para a contenção local.
Desafios no diagnóstico e diretrizes da OMS
O monitoramento do surto atual enfrenta barreiras geográficas e sociais severas. Relatórios da OMS apontam que a zona afetada possui dinâmica de acesso complexa, o que atrasa o envio de suprimentos e equipes de resposta rápida. Além disso, a sobreposição de outras enfermidades locais com sintomas semelhantes aos do Ebola — como febres hemorrágicas e malária — dificulta a precisão das estatísticas de letalidade.
“Até para confirmar que os casos que têm acontecido de óbitos são causados por ebola, existe uma certa dificuldade, segundo os relatos da OMS, porque existem outras doenças circulando na mesma região nesse momento. Então é difícil inclusive confirmar que os casos que se tem nesse momento são todos de ebola, mas sim, o surto existe e deve ser vigiado”, explica o médico.
A OMS reforça que o controle do Ebola nos países de origem depende crucialmente do fortalecimento de pilares como o rastreamento de contatos, o isolamento seguro de pacientes e a garantia de enterros dignos e sem riscos biológicos.
Capacidade de resposta e contenção no Brasil
Caso um caso importado venha a ser detectado em solo brasileiro, a dinâmica de transmissão do vírus favorece uma contenção rápida, desde que mantida a estrutura hospitalar adequada. Diferente de vírus respiratórios, o Ebola exige contato direto com fluidos corporais (como sangue, saliva e suor) de indivíduos que já manifestam os sintomas.
“A contenção do surto é relativamente simples em situações em que existem recursos adequados para isolamento dos pacientes, hospitais com infraestruturas adequadas, como é o caso do Brasil. As epidemias de ebola que acontecem na África acontecem num contexto social e de disponibilidade de serviço de saúde muito diferente do que a gente tem aqui”, compara o coordenador de infectologia.
Bon conclui reforçando a solidez do sistema de saúde pública nacional perante ameaças externas dessa natureza.“Existindo algum caso no Brasil, ele sendo rapidamente identificado, é muito provável que a gente conseguiria conter esse surto de maneira adequada. Mas, mais uma vez, a gente nunca teve nenhum caso importado de ebola para o Brasil, mesmo na maior epidemia que existiu em 2014.”

