4 julho, 2026
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Susy Freitas pinta Manaus no livro No Baile do Juízo Final – 03/07/2026 – Ilustrada

Se tem algo que Susy Freitas sabe que quer continuar fazendo em seus livros, é deixar todo mundo confuso. Literatura não é para explicar nada —é para sentir para caramba.

“Tudo é um delírio, a vida é uma grande loucura”, diz a escritora manauara. “Se você está lendo meu livro, vai ficar com tesão ou vai ficar com medo, mas vai sentir alguma coisa. Não quero saber o quanto o leitor entendeu, se sacou a referência. Está tudo muito didático hoje em dia. Tá chato.”

Sentada em uma calçada na rua Antônio Carlos, em São Paulo, a escritora de 40 anos parece feliz ao ouvir o repórter confessar que, a certa altura, parou de tentar entender toda a narrativa de “No Baile do Juízo Final” —livro que ela vai apresentar na Flip ao lado da também ousada catalã Eva Baltasar.

A miscelânea indefinível de histórias do livro —algo entre contos, novelas e ensaios— se ambienta em Manaus, entrelaçando personagens cativantes, pulsando de personalidade. Todos os fragmentos parecem caminhar para um “gran finale” amarradinho, que dê sentido à coisa toda com um laço de fita em cima. Ingenuidade do leitor.

“E isso para mim tem tudo a ver com a cidade. É a grande conclusão”, afirma a autora. “Em Manaus, as coisas se dissolvem. Parecem que vão ser algo e somem. A cidade é muito sem memória. Está sempre destruindo sua noção de passado, seja em relação aos povos indígenas, seja em relação a casarões históricos da época da borracha. Manaus é um grande Oxxo com uma FarmaBem do lado.”

A trama de “No Baile do Juízo Final” —não se aferre muito a ela— parte de um grupo de gente subversiva que se junta para tocar o terror em lugares sacros da cidade. Há a sensível Lua Madeira com sua indefectível meia arrastão, o militante Bento Ruas que volta de Brasília querendo se organizar, e a travesti Sorria, que protagoniza a história mais emocionante da coletânea toda.

A descrição do jovem Mutirão, “um caboco de cabelo liso, de cuia, baixinho e seco”, dá uma boa ideia da ambientação da obra. É um garoto de “estilo descolado, combinando uma camiseta puída do Portishead com uma bermuda tactel cheia de alienígenas desenhados e uma botinha Caterpillar falsificada com meia lilás”.

Também é ilustrativo o momento em que uma personagem vai comprar drogas de uma idosa. “É uma transação de segundos, apenas o tempo de reconhecer pela brecha, na tela da tevê da sala, o apresentador do jornal local anunciando quais celebridades globais já estão confirmadas nos camarotes do Festival de Parintins, a postos para a presença VIP numa celebração nativa regada a magia, pó e putas —nossa Santíssima Trindade.”

Ultracontemporânea, a narrativa recorre a pessoas fazendo Pix, “gente cunty” batendo leque, motoristas de Uber calculando se uma corrida vale a pena enquanto derretem de tesão e calor.

Freitas se mudou para São Paulo há dois anos por causa de seu emprego CLT, como designer de tecnologia em uma instituição financeira. Diz que, no começo, se sentia mais confortável “em lugares que eram mais zoados”, tipo “um bar mais sujinho”.

Quem lê seus livros entende que é dali que ela tira as maiores inspirações de sua atmosfera. No panorama que a autora pinta de Manaus, não há qualquer intenção antropológica. Não quer denunciar nem romantizar nada. Mas há uma atenção preciosa aos contrastes da cidade, indo a todo canto, mas sempre partindo de um olhar com pé no chão.

Quer capturar a “vibe da cidade”, como ela faz você se sentir. “Você está olhando para um lugar bonito num instante, olha para o lado e tem pobreza definhando.”

Essa mistura de tudo ao mesmo tempo também vale para a cena artística manauara. “São Paulo tem subculturas que muitas vezes não se conectam. Lá tem muita intercessão, da cena ‘ballroom’ com a galera do hip-hop, com a guitarrada moderninha para jovem universitário. Você pode circular em várias cenas alternativas e estar muito confortável em todas elas.”

No ambiente literário, que fervilha de zines e de autoria independente, conversam nichos como as fantasias amazônicas, os escritores marginais para quem é “cachaça na terra e Bukowski no céu” e uma forte literatura queer —”tem muita drag escrevendo livro antes de isso ter virado modinha para cá”.

É uma produção que ainda não circula pelo Brasil como deveria. Como apontou um mapeamento recente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, 97% do faturamento do mercado editorial se concentra na região Sudeste, e isso afeta o alcance de autores nascidos em estados como o Amazonas.

Freitas diz que “não deveria ser mandatório” que escritores tenham que ir a São Paulo e Rio de Janeiro para se projetar nacionalmente. “É um mercado como qualquer outro. É o mesmo motivo de eu ter me mudado de Manaus para vir trabalhar em São Paulo. É onde o trabalho está.”

A autora começou a publicar em 2014 por uma pequena editora chamada Bartlebee, do jornalista Daniel Mansur, mineiro criado em Manaus. Era um livro de poesia, “Véu sem Voz”, assim como seus dois lançamentos seguintes, “Alerta, Selvagem”, da Patuá, e “Carrego Meus Furos Comigo”, da Urutau.

Completando uma trinca de boas editoras independentes paulistas, estreou nos contos há dois anos com “Madnaus”, na Reformatório, indicada por seu professor de escrita criativa Ronaldo Bressane. Tudo isso ainda morando na capital amazonense.

“No Baile do Juízo Final” sai agora por sua casa de maior porte, a Todavia, mas Freitas diz que o percurso não foi nada planejado. Só vai escrevendo e mandando seus livros aonde sente haver oportunidade. Quer continuar assim, sem buscar agradar ao mercado, para não se “desconectar da realidade”.

“Não é o escritor que deveria estar indo atrás dos paulistas para mostrar seu trabalho”, aponta ela. “Quem está no centro de poder é que deveria estar procurando isso. Contribuir com a riqueza da literatura não deveria ser um trabalho só de quem escreve, mas de quem edita, de quem revisa, de quem faz todo o rolê.”

O objetivo, afinal, deveria ser ampliar o prisma do que é considerado boa literatura brasileira. “Que bom que agora tem um pouco dessa onda mercadológica da ‘literatura do Brasil profundo’. Brasil profundo é o caralho, mas, enfim, se quiser vender assim, pelo menos está mudando alguma coisa.”

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