9 outubro, 2026
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332 casos e 6 mortes

Levantamento aponta 41 feridos e três óbitos até agosto; motociclistas cobram mais atenção e conscientização

Campo Grande registrou 332 acidentes com ônibus entre janeiro e agosto, sendo 50 com motocicletas, com 41 feridos e três mortes, segundo a equipe de intervenção do transporte coletivo. Entre março e setembro, motociclistas, um adolescente de 17 anos e uma criança de 10 anos morreram em ocorrências com coletivos. A equipe não apresentou série histórica nem causas dos casos, e afirmou que os dados não permitem apontar causa comum. Motociclistas ouvidos defendem responsabilidade compartilhada no trânsito.

“Quando vê que alguém faleceu e deixou família, filho ainda, é algo para se pensar.” O alerta do motoentregador Elias Silva Tavares, de 31 anos, resume a preocupação diante da sequência de acidentes com ônibus do transporte coletivo em Campo Grande, que deixou motociclistas, um adolescente de 17 anos e uma criança de 10 anos mortos entre março e setembro de 2026.

Dados enviados pela equipe de intervenção do transporte coletivo ao Campo Grande News apontam 332 acidentes entre janeiro e agosto deste ano. Desse total, 282 envolveram carros e ônibus, enquanto 50 foram registrados entre motocicletas e coletivos. No período, houve 41 feridos e três mortes. Os números abrangem apenas os oito primeiros meses do ano e não incluem setembro e outubro, quando outras 3 pessoas morreram, totalizando 6 vítimas.

Segundo a equipe de intervenção, o levantamento também não apresenta uma série histórica comparável nem o detalhamento individual das ocorrências, o que impede afirmar se houve aumento dos acidentes ou identificar padrões relacionados a locais, horários, manobras e causas.

Entre janeiro e agosto, os ônibus percorreram aproximadamente 11,22 milhões de quilômetros e realizaram 601.221 viagens. A equipe ressaltou que o envolvimento de um coletivo em um acidente não determina, por si só, a responsabilidade pelo ocorrido.

Transporte coletivo soma 6 mortes e 332 acidentes neste ano em Campo Grande
Elias Silva Tavares, motoentregador e pai de quatro filhos, fala sobre os riscos no trânsito e a importância da conscientização (Foto: Osmar Veiga)

A sequência de mortes começou em março, quando uma motociclista de 33 anos morreu após ser atingida por um ônibus da linha 317, que faz o trajeto Santa Carmélia–Centro. O acidente ocorreu no cruzamento da Rua Brilhante com a Rua Argemiro Fialho, na Vila Bandeirantes. A vítima recebeu atendimento das equipes de resgate, mas não resistiu. Na ocasião, uma testemunha afirmou que o coletivo teria avançado o sinal vermelho, versão que ficou sob apuração.

Em maio, outro motociclista morreu após cair na Avenida Gunter Hans e ser atropelado por um ônibus que trafegava pela faixa da direita. O homem pilotava uma Honda Fan quando caiu na pista por circunstâncias ainda investigadas. Na sequência, o coletivo passou sobre ele. As primeiras imagens analisadas pela polícia não esclareceram o que provocou a queda.

Em julho, Andreia Nascimento de Jesus, de 21 anos, morreu após um acidente com um coletivo. Câmeras registraram o momento em que ela foi atingida e arrastada por cerca de uma quadra, até ficar presa entre a motocicleta e a estrutura do ônibus. A jovem foi retirada após uma operação de resgate que exigiu equipamentos para levantar o veículo e levada em estado grave para a Santa Casa. Ela morreu no dia seguinte.

Setembro também foi marcado por mortes no trânsito envolvendo coletivos. Juan Pablo Ferreira, de 19 anos, morreu após uma colisão com um ônibus na região do Vida Nova. Imagens mostraram a motocicleta atingindo o coletivo e o rapaz caindo sob o veículo. Uma das rodas passou sobre a cabeça do jovem, que morreu antes da chegada do Samu.

No mesmo mês, um menino de 10 anos morreu após ser atropelado por um ônibus da linha 406 enquanto andava de bicicleta no bairro Zé Pereira. A criança foi socorrida em estado grave, mas não resistiu aos ferimentos.

Transporte coletivo soma 6 mortes e 332 acidentes neste ano em Campo Grande
Mancha de sangue na pista onde adolescente de 17 anos morreu em acidente com ônibus, no Centro de Campo Grande (Foto: Osmar Veiga)

No dia 29 de setembro, outro acidente terminou em morte no Centro. Um adolescente de 17 anos estava na garupa de uma motocicleta que colidiu com um ônibus no cruzamento das ruas 13 de Maio e 15 de Novembro. Câmeras de segurança registraram os dois veículos fazendo uma conversão quando ocorreu a batida. A vítima morreu no local, enquanto a mulher que conduzia a moto ficou ferida e foi levada para a Santa Casa.

Além dos casos com mortes, outros episódios envolvendo coletivos foram registrados ao longo do ano. Entre eles, um homem atropelado dentro do Terminal General Osório, outro que ficou preso sob um ônibus na Vila Nhanhá e uma motociclista ferida em uma colisão na Avenida Joaquim Murtinho. Também houve uma batida entre ônibus e carro em um cruzamento movimentado do Centro e um engavetamento envolvendo um coletivo e três carros na Rua Brilhante.

Falhas compartilhadas – Motoentregador há um ano e meio, Elias Silva Tavares afirma que a responsabilidade no trânsito precisa ser compartilhada entre motociclistas e motoristas de ônibus. Pai de quatro filhos, ele diz que o risco de sofrer um acidente acompanha quem precisa sair de casa diariamente para trabalhar.

“Alguns [motoristas de ônibus] andam em alta velocidade, outros também viram fora da faixa. Mas também tem muitos motociclistas que fazem isso. Não dá para culpar um e tirar a culpa do outro”, afirmou.

Elias conta que já conduziu a motocicleta em alta velocidade e sofreu um acidente a 90 km/h, mas conseguiu sair sem ferimentos graves. A chegada do filho, segundo ele, mudou sua maneira de pensar sobre os riscos no trânsito.

“Depois nasceu meu filho, aí a gente passa a pensar nas consequências. Quando vê que alguém faleceu e deixou família, filho ainda, é algo para se pensar, se conscientizar”, disse.

Transporte coletivo soma 6 mortes e 332 acidentes neste ano em Campo Grande
Ônibus do transporte coletivo circula pelo Centro de Campo Grande (Foto: Osmar Veiga)

Para o motociclista, a pressa e a falta de atenção estão entre os comportamentos que precisam mudar. Ele defende que todos os condutores respeitem as regras e redobrem os cuidados para evitar novas mortes.

O enfermeiro e motociclista de aplicativo Milton Teodoro, de 40 anos, também aponta a falta de atenção como um dos fatores de risco. Ele afirma ter presenciado situações de imprudência envolvendo motociclistas, mas ressalta que alguns motoristas de ônibus também deixam de respeitar a preferência de quem está de moto.

“Você tem que cuidar de você e dos outros ainda, para não acontecer o que está acontecendo, mortes no trânsito”, afirmou.

Milton relatou ter visto um acidente entre um caminhão e uma motocicleta na região do Portal Caiobá. Segundo ele, o caminhão atravessava o cruzamento com o sinal aberto quando o motociclista teria perdido o controle e caído. A moto foi parar embaixo do veículo, mas o condutor conseguiu escapar e teria machucado apenas o pé.

A aposentada Pedrosa Oliveira, de 70 anos, utiliza o transporte coletivo e avalia que os motoristas de ônibus costumam dirigir com tranquilidade e respeitar as leis. Para ela, nem todo acidente significa necessariamente que houve uma infração.

“Eu acho que esse acidente não tem ninguém errado, acidente é acidente. É uma fatalidade. Nunca vi nada de errado enquanto eu estava dentro de ônibus”, afirmou.

Resposta incompleta – Em resposta aos questionamentos da reportagem, a equipe de intervenção do transporte coletivo informou que ainda não consolidou dados sobre as causas apuradas dos acidentes, afastamentos e reciclagem de motoristas, conteúdo e frequência dos treinamentos, quantidade de ônibus equipados para reduzir pontos cegos e previsão de ampliação desses dispositivos.

Também não foram apresentados detalhes sobre os pontos considerados críticos, os procedimentos internos adotados após acidentes graves ou as conclusões e medidas relacionadas aos casos com mortes.

A equipe lamentou as mortes e os ferimentos registrados e afirmou que a gravidade das ocorrências exige atenção à segurança da operação e análise individual dos casos.

Segundo a resposta, os dados disponíveis não permitem concluir que os acidentes tenham uma causa comum nem afirmar que a operação esteja em condição insatisfatória de segurança. A avaliação das medidas de prevenção, acrescentou, depende das circunstâncias de cada ocorrência e da evolução dos indicadores ao longo do tempo.

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